#6059

Quando falamos da diáspora e do êxodo massivo de venezuelanos, o fenómeno centra-se sempre na massa de gente que partiu. Muitas vezes não se pensa nos que ficaram, em como ficou o país quando oito milhões dos seus habitantes partiram. Mas a sensação de se ter ficado desenraizado, a sensação de exílio, a de não pertença, também a sentem aqueles que ficaram.

Rodrigo Blanco Calderon, Ipsilon

#5336

Se ainda falo no plural sobre aquele dia [do enterro da minha mãe], ao hábito se deve, porque a goma dos anos nos soldou como às partes de uma espada com que nos defendêssemos uma à outra. Enquanto redigia a inscrição para o seu túmulo, percebi que a primeira morte acontece na linguagem, nesse acto de arrancar os sujeitos do presente para os fixar no passado. Transformá-los em acções acabadas. Coisas que começaram e terminaram num tempo extinto. Aquilo que foi e não voltará a ser. A verdade era essa: a minha mãe já só existiria conjugada de outra forma. Ao sepultá-la, encerrava a minha infância de filha sem filhos. Naquela cidade, no momento crítico da morte, perdêramos tudo, até as palavras no tempo presente.

Karina Sainz Borgo, ‘Cai a Noite em Caracas’

#5332

Quando chegámos ao cemitério, já a sepultura estava aberta com duas valas. Uma para ela, outra para mim.

[…]

Enterrámos a minha mãe com as suas coisas: o vestido azul, os sapatos pretos sem cunha e os óculos bifocais. Não podíamos despedir-nos de outra maneira. Não podíamos separar aqueles artigos dos seus gestos. Teria sido como devolvê-la incompleta à terra.

Karina Sainz Borgo, ‘Cai a Noite em Caracas’

[…]

‘Estamos no Ar’ é a estreia de Diogo Costa Amarante no campo da longa-metragem, [numa história em que uma mulher] sabe no funeral do marido que ele comprara dois espaços perenes no chão do cemitério, marcando, assim, lugar para ela, mesmo ali ao lado. E ela que nem quer ser enterrada, prefere a cremação. Talvez por isso, o defunto persegue-a, longe de jazer apaziguado.

Jorge Leitão Ramos, revista do semanário Expresso

#5324

Aurora gostava de recortar notícias da imprensa. Tinha colecções desconexas. Uma receita de toucinho-do-céu, arroz doce ou profiteroles, juntamente com as informações diárias das telenovelas que passavam na televisão. Era possível reconstruir o historial dramático de uma década inteira através da sua hemeroteca. Aurora devia sofrer com o desfecho de cada episódio, pois sublinhava a esferográfica os resumos dos redactores. […] Ao chegar à terceira pasta de recortes, fiquei embasbacada: tinha guardada entre as suas coisas a imagem do soldado morto na calçada, o mesmo que descobri no dia do meu décimo aniversário e que eu própria conservei durante muito tempo. […] Pelo desenho de lençóis dobrados do jornal, percebi porque é que a Aurora guardara aquela fotografia: pertencia à mesma folha de capa, a que contém a primeira e última página, onde costumavam paginar as resenhas da televisão, [com] o obituário da actriz Doris Wells, a fera. […] Eu guardava a morte de um país, ela, a de uma actriz de novelas. Os dois foram uma ficção.

Karina Sainz Borgo, ‘Cai a Noite em Caracas’

#4409

Juan Pujol era um jovem estudante de Filosofia, e depois de Agricultura, e pacifista convicto que envelhecera precocemente ao viver escondido em várias casas para não participar na Guerra Civil de Espanha. Quando finalmente se alistou no exército republicano, conseguiu ser recrutado como telegrafista, para não ter de matar ninguém. Com o início da II Guerra Mundial, que o apanha em Madrid, a sua repulsa pelo fascismo convence-o a oferecer-se como espião aos britânicos, mas é rejeitado. É então que se decide por uma jogada de altíssimo risco: posando como um fanático nazi, vai oferecer-se aos alemães com intenção de se tornar um agente duplo. Para reforçar a sua credibilidade deveria ir para Inglaterra obter informações. Mas, em vez disso, vem para Lisboa, onde, instalado num hotelzinho (que ainda existe) ali ao elevador da Glória, começa a inventar uma rede de espionagem que lhe passava informações falsas que ele passava aos alemães, misturadas com notícias reais que ele encontrava nos jornais que chegavam às tabacarias do Rossio. Após uma viagem a Madrid, os alemães confirmaram-no como espião e enviam-no, acham eles, para Inglaterra. Ele regressa a Portugal com a mulher e, reinstalado em Lisboa e depois numa casinha do Estoril, engana os alemães com as suas invenções, enquanto vai tentando explicar a sua história aos incrédulos britânicos, que continuam a rejeitá-lo. É só quando os britânicos detectam movimentos militares alemães inspirados pelas informações falsas de Juan Pujol que finalmente os aliados e convencem da sua sinceridade antifascista e lhe oferecem a passagem para Londres. A partir daí, as suas cartas quase diárias (de que os aliados conheciam os originais) permitiram decifrar códigos alemães e salvar milhares de vidas, inclusive no desembarque da Normandia. Após a guerra, Pujol teve de fingir a sua morte em Angola e refazer a sua vida na Venezuela. Os nazis nunca desconfiaram de nada, e até o condecoraram (tal como, evidentemente, os aliados). […] Era um farsante do bem, como aqueles de que [John] Le Carré gostava. Daqueles que unia, em vez de separar. Juan Pujol, o nosso homem em Lisboa, ao serviço da humanidade.

Rui Tavares, jornal Público

#174

O Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou ter assinado um decreto que antecipa o Natal para Novembro. […] O Presidente disse que o seu desejo é “a felicidade e a paz” e que antecipar a festa do Natal é, além de uma forma de dar ânimo aos venezuelanos, uma medida contra os que querem criar “distúrbios” e “violência”. Não há nada como um cântico de Natal, disse Nicolás Maduro. Em Novembro, o Presidente criara a secretaria de Estado da Felicidade, sem que tivesse havido uma explicação política a justificar a medida.

Ana Gomes Ferreira, jornal Público

#46

Eu estava a rezar numa capela e, de repente, entrou um passarinho, pequenino, deu três voltas sobre a minha cabeça, parou numa viga de madeira e começou a cantar. Era um assobio lindo. Fiquei a ouvir e depois também cantei para ele. Se tu cantas, eu também canto, disse para ele. E cantei. O passarinho cantou mais um pouquinho, deu uma volta e foi embora. E eu senti o espírito de Chávez.

Nicolas Maduro, candidato à presidência da Venezuela, jornal Público