#2234

Há 19,5 milhões de habitantes no Cairo, a cidade mais populosa do mundo árabe e do continente africano. É um lugar com um enorme peso histórico, com marcas profundas das passagens de vários povos pelo território e com a religião disseminada por todo o seu sistema nevrálgico, fisicamente presente no seu emaranhado de ruas. É um sítio desmedido, excessivo, entalado entre essa História e o seu grito de reinvenção cosmopolita.

Gonçalo Frota, jornal Público

#2233

Escrever também é desenhar.

Ana Luísa Amaral, poeta, revista do semanário Expresso

#2232

O primeiro cabelo branco ou a ruga que aparece ao canto dos olhos não marca o começo da velhice. A velhice não tem data marcada para aparecer. Acontecerá um dia, não se sabe quando.

Alfredo Cunha, fotógrafo, jornal Público

#2231

Numa ida à casa de banho [do novo restaurante ‘100 Maneiras’, de Ljubomir Stanisic, em Lisboa], somos recebidos pela voz de Salazar, que discursa. É tão desconcertante que o que está a dizer nos fica na memória. Mas esta era, já há tempo, uma das ideias de Ljubomir, que quer que no 100 Maneiras a sua história passe por outras coisas que não apenas a comida, [como] os líderes políticos que discursam na casa de banho. Podia ter-nos calhado o antigo Presidente da Jugoslávia, Tito, ou Martin Luther King, Nelson Mandela, os astronautas da Missão Apollo 11, Alberto Caeiro, José Saramago ou o som das mesquitas de Sarajevo. Calhou-nos Salazar. Quem sabe o que acontecerá da próxima vez? 

Alexandra Prado Coelho, Fugas

#2230

Estudei psicologia clínica e soube que tinha uma parte do cérebro desenvolvida que normalmente são os taxistas que têm.
Rita Redshoes, semanário Expresso

#2229

Produto de um trabalho de três anos numa prisão em Birmingham, ‘What Photography has in Common with an Empty Vase’ de Edgar Martins, na Galeria Filomena Soares [em Lisboa], confronta-nos com as lacunas e as possibilidades da fotografia na sua relação com o real e a ficção. […] [Segundo Edgar Martins] ‘foi um processo demorado. Tive que pedir aos guardas que me apresentassem pessoas que demonstrassem interesse em participar no projecto. A maioria era pessoas com sentenças longas, 10 a 20 anos. Não quis conhecer os motivos que os levaram ali. Fui estabelecendo relações. Ia visitá-los de duas em duas semanas. Por vezes, ia às celas. Também acompanhava muito as famílias nas visitas. E aos poucos fui, também, conhecendo-as. Visitei-as nas suas casas, durante três anos. As pessoas, as relações humanas foram fundamentais. […] Havia um recluso que pedia há dois anos para o mudarem de cela. Era muito escura, não tinha luz natural. E sempre que a família o visitava, pedia um marcador amarelo. Ora, as canetas não eram permitidas, mas foram arranjando maneira de lhas passar. E ele foi pintando a janela de amarelo, para fazer entrar o sol. Sabia que, mais tarde ou mais cedo, seria lavada, mas não desistia. E quando foi para outra cela, passou a pintar a janela de azul. […] A fotografia por natureza é violenta e sobretudo quando opera neste tipo de contextos’. […] Edgar Martins debate-se com a ausência, a insuficiência e o vazio da fotografia, mas insiste em fazer imagens. Confia na polissemia que as caracteriza, na capacidade inaudita que têm, por vezes, de falar do real, sem serem realistas. Ou seja, assumindo-se como ficção.

José Marmeleira, Ipsilon

#2228

A primeira questão que se coloca quando se fala de Deus é a sua existência. Remeto-a para Anselmo de Cantuária, o beneditino que, ainda não entrados no século XII, […] diz mais ou menos isto: se Aquele cujo algo maior não pode ser concebido existisse apenas na mente e não na realidade, não poderia ser Aquele cujo algo maior não pode ser concebido; deixando o leitor literalmente às voltas com tal argumentação.
Ana Cristina Leonardo, revista do semanário Expresso

#2226

Hong Sang-soo […] é um cineasta que frequentemente faz da meteorologia um protagonista que insidiosamente se impõe às personagens humanas. É o cineasta mais ‘climático’ que existe actualmente, e se é um cineasta das ‘quatro estações’ onde os filmes de verão, calor e noites regadas a soju também existem, a impressão é de que ali, na maior parte das vezes, faz muito frio e chove muito. […] Talvez a Coreia e os coreanos pareçam nada ter a ver connosco. […] Nada promove mais a aproximação entre portugueses e coreanos do que os filmes de Hong: extraindo as pecularidades culturais, de resto facilmente substituíveis por outras, são filmes que se podiam passar aqui, nas cidades portuguesas gentrificadas ou a caminho de, nos bares frequentados por intelectuais e ‘hipsters’, e gente angustiada ou apaixonada, às vezes estupidamente angustiada ou estupidamente apaixonada, naquele ponto em que não se percebe se devemos rir ou chorar. Claro, faz é muito mais frio.

Luís Miguel Oliveira, Ipsilon

#2225

[Quando era pequeno], gostava de pegar na ‘National Geographic’ e, antes de começar a ler, via as fotos e as legendas. Só comecei a fotografar no primeiro ano na Universidade de Boston. Inscrevi-me numa aula de fotografia e fiquei fascinado com todo o processo, não apenas controlar a câmara para fazer a fotografia mas também revelar o rolo no quarto escuro. Era algo mágico! […] Quem quer ser um bom fotógrafo tem de ser paciente e esperar que as coisas aconteçam.

Pete Souza, fotógrafo, revista do semanário Expresso

#2224

Parece um cenário remoto, mas não passou muito tempo sobre aquele tempo em que era mais fácil encontrar um carteirista na Praça da Batalha (ou um querubim) do que um turista. Foi no início do século XXI, anos de chumbo na cidade [do Porto]: a Baixa esvaía-se de gente por volta das oito, o comércio encenava nas montras a sua ruína e a sua melancolia, os turistas não eram ocidentais – eram acidentais.

Pedro Sobrado, presidente do Teatro Nacional São João no Porto, jornal Público

#2223

Captar, na escuridão do presente, a luz que se esforça por chegar até nós sem nunca nos alcançar – é isto o que significa ser contemporâneo.

Giorgio Agamben, filósofo

#2222

Um aeroporto é hoje o lugar de todos os perigos: ele fornece a imagem abreviada e condensada de uma guerra civil planetária em curso.

António Guerreiro, Ipsilon

#2221

Já há muitos anos, uma jornalista perguntou-me o que desejava escrever como epitáfio sobre a sepultura. Respondi que, se alguém tiver essa triste ideia, escreva: não estou aqui.

Frei Bento Domingues, jornal Público

#2220

A arquitectura na capital do Qatar [Doha] é quase como as dunas de areia do deserto do país: rapidamente cambiante [e já vemos] o skyline como uma espécie de árvore de Natal de iluminação desequilibrada.

Andreia Marques Pereira, fugas

#2219

As leis do luto não são nenhumas. Quando morreu o meu pai, passei dois anos deprimido, com as janelas tapadas por panos pretos. Ajudou-me a minha mãe, que se tornou minha vizinha. Ela depois disse-me que eu tinha vivido só com um garfo e uma faca, um prato e uma frigideira onde aquecia o conteúdo de latas. Não me lembro de nada. Lembro-me de ter passado 20 horas por dia a ler livros, revistas e jornais do princípio até ao fim, incluindo os anúncios e as fichas técnicas.

Miguel Esteves Cardoso, jornal Público

#2218

Cada fracasso ensina-nos algo que precisamos aprender.

Charles Dickens

Envergonhamo-nos dos nossos fracassos, vemos neles apenas humilhantes derrotas, quando ganharíamos em encará-los mais vezes como etapas necessárias de um processo e até como oportunidades para caminhos interiores que não tínhamos entrevisto. […] Jean Lacroix, que escreveu um dos mais estimulantes tratados que conheço sobre o fracasso, não hesita em defender que ele é mais produtivo do que o êxito, porque nos obriga a realizar uma auscultação ampla e profunda da nossa própria vida e a conectarmo-nos a ela. […] Mesmo quando fugimos dele por muito tempo, a sua necessidade impõe-se como condição do verdadeiro autoconhecimento.

José Tolentino Mendonça, revista do semanário Expresso

#2216

Para mim, Van Gogh era um génio torturado, tão louco que cortou a própria orelha, mas ao mesmo tempo tão lúcido que escreveu coisas belíssimas. Grande parte da sua doença era um problema de conciliação entre a sua visão e o seu modo de vida com competências sociais básicas e com questões de carreira. Essa tensão não era demência, era depressão, era luta… […] Van Gogh meditou muito sobre a figura de Cristo com quem se sentia ligado pela dor, pelo sofrimento. Van Gogh não tinha medo do sofrimento, aceitava-o como parte da vida.

Willem Dafoe, actor, revista do jornal Expresso

#2215

Se a Fitch ou a Moody’s atribuissem a alguma dívida pública o nível de ‘poesia’, seria por acharem a categoria de ‘lixo’ demasiado positiva para um empréstimo que os credores só por absoluto lirismo poderiam sonhar em reaver.

Luís Miguel Costa, jornal Público

#2214

Aquela hora depois do espectáculo [de teatro] é sempre uma hora cinzenta. Mesmo quando o espectáculo correu bem. É sempre uma hora em que reentro em casa, no cinzento, até ligar o computador para começar a pensar como vai ser o meu dia de amanhã. É sempre o teatro e os ensaios que acabam com esse cinzento.

Jorge Silva Melo, encenador, semanário Expresso

#2213

A liberdade artística é a única razão pela qual o Estado deve apoiar as artes. Para que as artes não estejam sujeitas às regras do mercado e ao lucro, e para que um povo possa ter acesso à arte. […] A cultura tem de ser tratada como um valor fundamental como a educação, a saúde, a habitação. […] Tem de ser, cada vez mais, uma realidade da vida das pessoas, de segunda a sexta-feira.
Tiago Rodrigues, actor, dramaturgo, director do Teatro D Maria II, revista do semanário Expresso

#2212

Sou uma grande fã daquelas ‘histórias de amor minúsculas’ do The New York Times. […] Digam lá se não é bonito um jornal diário ter uma secção chamada Amor. […] Todos temos minúsculas histórias de amor, mesmo que às vezes possamos não nos aperceber delas. […] Às vezes fico a pensar no que gostaria de ler ali que me fizesse sorrir ainda mais.

Patrícia Carvalho, jornal Público

#2209

Ninguém sabe nada do que acontece depois da morte. Esquecemos que sabemos pouco do que é mais importante antes da morte. A vida! O mais significativo escapa à linguagem factual e à das ciências. Como disse Nélida Piñon, ‘tudo o que preside ao humano provém do mistério. Amor, vida, morte, nada disto se explica. O mistério é puro encanto. […] O que me define talvez seja a teologia do mistério, sim. O mistério roça em Deus, no pecado, em tudo’.

Frei Bento Domingues, jornal Público

#2208

Timor é um lugar que já não existe em lado nenhum do mundo! A tranquilidade e a harmonia pairam no ar. Todos se cumprimentam, desinteressadamente, existe uma onda extraordinariamente positiva em todos os locais por onde se passa. […] Embora o tétum seja a língua mais falada, o português é facilmente compreendido até porque é uma gente que gosta muito de comunicar! É completamente inacreditável a facilidade com que se abordam as pessoas na rua, como se estivéssemos num grande encontro familiar em que todos queiram contribuir para o nosso bem-estar! […] Uma alegria constante e rara que é praticamente inexistente na sociedade ocidental nos dias de hoje. E por isso dá a sensação de estarmos a ser transportados para um conto, uma fantasia imaginada por um escritor idealista.

Fugas

#2207

[Depois do cancro,] as coisas pequeninas deixaram de ter importância. […] Deixei de ser crispado, tenho menos medos, sou mais aberto. Ganhei uma ligeireza com a vida. É a dança. […] Ainda agora fui três dias seguidos ao [festival] Neopop em Viana do Castelo ouvir techno. E vou ao ZNA, que é trance. É ginástica. Danço e filmo, não faço mais nada. Não tenho medo das convenções e do politicamente correcto. Os miúdos dizem-me que gostavam de ser como eu quando chegarem à minha idade. Digo-lhes para irem aos treinos.

João Botelho, cineasta, revista do semanário Expresso

#2206

Um disco não é um livro, não tem páginas. Mas tem camadas, superfícies sobrepostas de sentidos que contam uma história, a do compositor, a do músico, a dos instrumentos. A do tempo e a do lugar onde foi escrita.

Luciana Leiderfarb, revista do semanário Expresso

#2205

Depois de uma década e meia de perseverança, cheguei à conclusão de que poucas coisas ajudam tanto a conhecermo-nos a nós mesmos como nos sentarmos em silêncio para ouvir e ver o que somos.

Pablo d’Ors, padre e escritor, jornal Público

#2204

Guarda-redes, [John] Burridge, ou ‘Budgie’, como era conhecido, teve uma carreira singular ao longo da qual representou 29 clubes. […] Começou a jogar profissionalmente aos 15 anos e durante quase três décadas não parou. Distinguiu-se pela sua originalidade – diz-se que foi dos primeiros guarda-redes a subir ao relvado para aquecer antes dos jogos, com uma série de exercícios, que incluía caminhar sobre as mãos, fazer flexões, saltos mortais e outras acrobacias.

Tiago Pimental, jornal Público

#2203

Desde 2013, a Photographers Without Borders [PWB] estabeleceu contacto de mais de 100 voluntários com 125 missões em 54 países. O PWB ajudou a conservar dez hectares de floresta tropical de Sumatra [na Indonésia], apoiou os esforços de reflorestamento, plantando centenas de árvores, enviou meninas para a escola na Índia, ajudou sobreviventes do tráfico humano no Quénia, apoiou a protecção marinha em Moçambique. Tem uma revista online e impressa. Todos os anos, patrocina um contador de histórias indígena para mostrar o seu trabalho no Contact, festival de fotografia norte-americano. Deixa máquinas fotográficas com as comunidades com as quais trabalha e treina locais para que a narrativa possa ser contínua.

Luís Octávio Costa, Fugas

Sumatra, na Indonésia, é um sítio onde as pessoas chamam ‘antepassado’ aos orangotangos e ‘avô’ aos elefantes. […] [Com a PWB] vamos às raízes e estabelecemos relações saudáveis. Procuramos o fotógrafo certo com a ética certa para o trabalho certo. E amplificamos vozes.

Danielle da Silva, fundadora da Photographers Without Borders, Fugas

#2202

Passar uma só hora a pensar numa coisa traz resultados surpreendentes. O pensamento é uma corrente em que se mergulha. Não é uma série de mergulhos aparatosos em que precisamos de estar sempre a sair da água para voltar a saltar.

Miguel Esteves Cardoso, jornal Público

#2201

Em tempos, estive em depressão profunda. Sentei-me numa floresta a pensar na vida e, de repente, uma raposa cinzenta, raro animal que também sobe às árvores, olhou-me intensamente nos olhos e desapareceu num flash. Foi como uma revelação que me trouxe de volta à realidade. Eu não estava no presente. A raposa estava. E o presente é o tempo que conta.

Jim Jarmusch, cineasta, revista do semanário Expresso

#2200

Fernando Pessoa fez uma profecia na qual acredito mais e mais. Ele fez uns cálculos astrológicos e disse que ia ser conhecido plenamente no contexto da história portuguesa em 2198.

Jerónimo Pizarro, professor e investigador, jornal Público

#2199

Os jornais de referência vão ter de fazer a sua parte [na procura da verdade]. Investir neles, claro. Mas sobretudo lutar contra o medo de outra verdade: a de que também o novo modelo de negócio falhou – o da procura dos cliques fáceis, dos pageviews aos milhões, das métricas de popularidade, dos pequenos anúncios na homepage do jornal. Esse modelo não só trouxe poucas receitas como destruiu valor de marca e a motivação dos jornalistas. O modelo cedeu aos títulos rápidos, aos temas feitos para chamar atenção no Facebook, aos textos sem contexto ou que não nos acrescentam, às 1001 notificações por dia a piscar o olho para que alguém as abra. Cedeu às notícias que não chegaram a ser confirmadas, às mentiras não verificadas. E com isso, na procura de compensar as perdas chamando leitores novos, acabou por afastar outros leitores, os mais fiéis, inteligentes, exigentes e os que mais estariam dispostos a pagar por um produto de qualidade. […] O meu medo, caro leitor, é que chegue o dia em que passamos por um quiosque que já não tem para vender um só jornal de referência, precisamente aquele que mais luta pela verdade, aquele que mais nos garante a independência e a democracia. E tão frágil que sabemos que a democracia é.

David Dinis, semanário Expresso

#2198

[No novo álbum dos Efterklang, ‘Altid Sammen’], é Casper Clausen, homem em movimento, a redescobrir-se na língua que é sua. ‘Vivo fora da Dinamarca há 10 anos, portanto criei uma distância acolhedora’, explica. ‘Foi um processo interessante encontrar espaço para o dinamarquês num disco em que a voz é muito mais proeminente, isto tentando que não seja necessário compreender exactamente as palavras cantadas.’ […] É um álbum sobre a ‘contradição entre sermos únicos e isolados e sermos unos ao mesmo tempo’. Casper diz que, nos momentos em que se sente perdido, regressa sempre ao mesmo pensamento. ‘Temos este planeta e vemos as estrelas lá em cima. Há nisso uma fisicalidade e há a pergunta que se anuncia: temos alguma palavra a dizer em tudo isto ou somos apenas uma gota insignificante no universo?’. Canção a canção, colaboração a colaboração, concerto a concerto, os Efterklang vão colocando a questão. Responder não é o mais importante. Importam as vozes que se lhes juntam no caminho.

Jornal Público

#2196

Os melhores lugares dos autocarros urbanos são aqueles logo ao início, geralmente solitários, do lado direito de quem entra. Melhor ainda se forem de costas para o motorista, sobretudo nas cidades que não conhecemos: a estrada fica invisível, o percurso é um mistério, assistimos do nosso lugar a um espectáculo de permanente surpresa. […] Estes lugares da entrada estão mais ou menos ao nível da rua e isso permite ver a cidade de uma perspectiva incomum. […] Os edifícios revelam-se inteiros, com pormenores que geralmente escapam à atenção pedestre. Consegue-se perceber as várias vidas de um prédio consoante os acrescentos que lhe fizeram. […] Daquele lugar do autocarro vemos a silhueta das ruas – uns prédios mais altos que outros, alguns absurdamente altos, outros comicamente baixos -,  adivinhamos quais se vão manter por mais uns anos e quais serão abatidos em breve, dando lugar a coisa nova que avaliaremos em posterior viagem de autocarro. Percebemos também a sua relação com o céu, as árvores, os candeeiros. Se estão estrangulados em fios de telecomunicações ou se estes foram civilmente escondidos. Se as marquises são coisa esporádica ou abundante. Se há toldos, persianas, portadas, estores ou cortinas. Se as varandas têm vegetação, cadeiras de baloiço, mesas ou espreguiçadeiras. […] Estes lugares nos autocarro são um balcão privilegiado para o espectáculo do mundo, que à nossa volta se desenrola indiferente à nossa presença. […] Mesmo nas cidades que já conhecemos o exercício é proveitoso.

João Pedro Pincha, jornal Público

#2195

Foram raras as vezes em que [o coreógrafo] Hans van Manen não teve de pesquisar longamente as gravações a usar [nas suas peças]. Uma dessas ocasiões aconteceu quando um amigo, convidado a jantar em sua casa, lhe mostrou o tema ‘In the Future’, do ex Talking Heads David Byrne, e o coreógrafo se apaixonou instantaneamente pelo pulsar exuberantemente rítmico daquela música. O sentido lúdico e geométrico da coreografia havia de tornar-se uma das principais razões para se vulgarizar o epíteto que, desde então, persegue van Manen, enquanto o ‘Mondrian da dança’. Outra das situações em que a música o tomou de surpresa foi quando, em 1976, ao jantar com um amigo crítico de dança em Berlim, não conseguiu desligar os ouvidos do primeiro contacto que teve com a música de Astor Piazolla. Ano e meio depois, van Manen estrearia ‘5 Tangos’, peça construída em torno do bandonéon do argentino. […] Na fotografia, que também praticou artisticamente durante dez anos, van Manen gostava sobretudo do contraste que proporcionava em relação à dança: de um lado a apologia do movimento, do outro a sua mera sugestão ou o congelamento de um instante; de um lado o fluxo contínuo do efémero, do outro a fixação de um único momento para a eternidade.

Gonçalo Frota, jornal Público

#2194

Desenhar ajuda-te a apreciar o que te rodeia, […] é como se colocasses óculos novos todos os dias. […] Quando vês uma cidade através de um desenho, a reacção é muito diferente do que quando vês uma fotografia. Num desenho não está toda a informação que está numa fotografia, completa-la tu com a tua imaginação. São linhas e cor. O bonito é que o resultado é sempre diferente. Se nos colocarmos os dois numa esquina a fazer uma foto, a foto vai ser igual. Se os dois desenharmos, é impossível que o desenho seja igual. É uma forma de expressão completamente individual. Nós, o nosso lápis e o nosso papel.

Gabriel Campanario, fundador do movimento urban sketchers, fugas

#2193

Uma voz trémula, emoldurada por guitarra acústica e pouco mais, canta sobre extraterrestres e a bisavó, homens e mulheres, dor antiga e desgostos a estrear. No centro dos Big Thief, um quarteto indie radicado em Brooklyn, Nova Iorque, está Adrienne Lenker, cantora-compositora de 27 anos que, no terceiro álbum da banda que lidera, continua a fazer o mais improvável: ser a protagonista maior de canções emocionalmente intensas, sem para tal recorrer a qualquer tipo de ostentação. […] ‘A dor e o trauma são passados de geração em geração. A dor ancestral fica armazenada. Em vez de criticar ou ignorar as coisas mais violentas, tento abordá-las com luz e amor. […] Na vida, tudo é passageiro. Relações, pessoas, a nossa forma física… Dizemos adeus à nossa infância, perdemos a elasticidade da pele, o cabelo e dentes. A vida é um processo de abandono. […] E por ser finita é que é tão doce.’ […] Adrienne Lenker é o coração de uma banda de corpo delicado mas ágil, líquido, e em verdadeiro estado de graça.

Lia Pereira, revista do semanário Expresso

#2192

[No Porto dizia-se que havia] uma rua que ‘vem do Postigo da Pedra da Mentira para a Lada’. O leitor, versado nestas coisas da toponímia portuense, já adivinhou que aquele postigo da Pedra da Mentira é o antigo Postigo das Verdades, também conhecido como o postigo das mentiras. Trata-se daquele local onde está o conhecido Arco das Verdades.

Germano Silva, Jornal de Notícias

#2191

Em Júlio Resende, quanto mais vai envelhecendo, mais vital e solar se torna a sua arte. E ao mesmo tempo mais pueril. É então que a sua pintura deixa de falar e começa a cantar. […] É desse modo que se defende do peso do mundo.

Eugénio de Andrade

#2190

Na Europa medieval, os barbeiros não se limitavam a cortar cabelo e a fazer a barba; também eram cirurgiões, efectuando uma série de operações menores, incluindo sangrias, administrações de clisteres e extracção de dentes. Os cirurgiões barbeiros, e os mais especializados ‘puxadores de dentes’, torciam, esmagavam e martelavam dentes para fora das bocas das pessoas com um instrumento metálico assustador chamado chave dental. Imaginem uma quimera de um gancho, um martelo e um fórceps. Às vezes os resultados eram desastrosos.

Arsh Raziudin, The Atlantic, revista do semanário Expresso

#2189

Em Macau há sempre essa ideia de coisas que escapam à nossa compreensão, a língua, a cultura, tudo.

Ivo M. Ferreira, cineasta, revista do semanário Expresso

#2188

O nome deste revolucionário equipamento vem do grego, tele, que quer dizer distante, e visione, que significa visão. […] A televisão colocou as imagens no sítio ocupado pelas palavras, contidas nos livros ou ditas por nós, em discurso directo ou através da rádio. As histórias que nos eram contadas com letras e que cujas imagens tínhamos que criar mentalmente, através dos nossos próprios recursos imaginativos e experienciais, passaram a ser traduzidas através de imagens reais, vindas de uma forma de registo que durante muito tempo pensámos não ser manuseada e corresponder sempre à verdade.

Guta Moura Guedes, revista do semanário Expresso

#2187

[A música de Angélica Salvi é] encantatória, circular, hipnótica, com qualquer coisa de pacificador, difícil de situar pela singularidade. Nem música contemporânea, electroacústica, improvisada ou de ambientes folk, mas tudo isso um pouco, com Salvi, a harpa e alguns efeitos electrónicos, a devolverem-nos uma jornada retemperadora.

Vítor Belanciano, jornal Público

#2186

Um filósofo da vida deve deitar sempre mão à caneta, porque não tem o direito a desperdiçar os seus pensamentos.

Sergio Ramírez, ‘Já Ninguém Chorar por Mim’

#2185

[Nos dias de hoje,] a comunicação chega através de frases que não têm uma subordinada, [o que é] um grande limite: a pesquisa profunda, o aprofundamento, requerem uma frase com derivadas, porque elas permitem articular o pensamento, fazendo-o, no seu conjunto, como uma arquitectura. A própria música contemporânea, objecto de culto por parte dos jovens, é ritmo por excelência. Um ritmo dual, reiterado. Tanto é verdade que muitas vezes é o som da bateria que reflecte o batimento cardíaco. Por contraste, a grande música – a de Bach, por exemplo – é uma catedral, na qual a uma unidade musical inicial se segue uma série de pináculos, tal como numa catedral, com um vértice e, no final, aparece de novo a célula inicial. É um discurso complexo. […] [Esta] simplificação é um valor, porque permite tantas vezes perceber o coração dos problemas, mas há o risco de, pelo contrário, ser uma simplificação que vai ao quase vazio, à inconsistência, à superficialidade, à banalidade, mesmo à vulgaridade e à agressividade – e por fim, algumas vezes, à estupidez…. [Outra dificuldade] é aquela que, na cultura contemporânea, exige o uso da imagem. Também isto é muito positivo mas leva, progressivamente, à perda da capacidade de leitura e meditação […] e, no final, também à incapacidade de escuta. […] [Hoje] compreendo que não posso renunciar a vinte séculos ou mais de história, da cultura clássica e da cultura crista, extremamente ricas e complexas. […] Mas devo igualmente adaptar-me, entrar em sintonia com os jovens. E eles exigem, primeiro, que faça frases breves – escrevo todos os dias dois tweets – e que me interesse pela sua música.

Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício para a Cultura do Vaticano, revista do semanário Expresso