#2322

É mais do que uma ironia que as imagens captadas com o telemóvel mostrem muito menos do que os olhos vêem no espaço.

Celso Martins, revista do semanário Expresso

#2320

Quando era miúdo, passava horas no quarto a olhar para o tecto. […] Quando olhava para o tecto, punha-me perguntas: mas quando é que eu fui feliz? Uma vez disse isso à minha mãe, que ficou indignadíssima.

António Lobo Antunes, escritor, Ipsilon

#2319

Istambul é grande e com muita história. Já se chamou Constantinopla e também já se chamou Bizâncio. É uma cidade que liga a Europa ao continente asiático. É uma cidade que reúne um confluir de culturas, a ocidental, a muçulmana e outras. […] Na ponte Gálata, que une as duas partes europeias de Istambul, come-se peixe no tabuleiro de baixo e pesca-se no tabuleiro de cima. Podia ser ao contrário, mas não, é assim. E ainda bem que é assim. Se fosse ao contrário, quando estamos a jantar nunca conseguíamos ver os peixes a subir.

Augusto Lemos, fugas

#2318

Às vezes, nasce um homem numa terra
que é essa terra
E a terra em que esse homem é enterrado
é esse homem
E os homens que depois nascem dessa terra
são esse homem

Ernesto Cardenal

#2317

Nascida em Paris, filha de mãe francesa e de pai croata, Henriette Théodora Markovitch atravessou todo o século XX. […] Dora (como era conhecida em criança), estudou artes decorativas […] e pintura, […] a opção foi, porém, a fotografia, com o nome de guerra Dora Maar (a primeira sílaba do apelido). […] Era um mulher intrigante, de tez escura, queixo assertivo, lábios escarlates, pestanuda e de olhos azuis, […] que falava correctamente espanhol. […] O fim da relação [amorosa com Pablo Picasso] custou a Maar um colapso emocional seguido de depressão nervosa que os choques eléctricos e o tratamento psicanalítico com Jacques Lacan pouco aliviaram. A salvação surgiria no regresso fervoroso à fé católica. […] O trabalho comercial (moda, publicidade, arquitectura, retrato, nus) deu-lhe a liberdade de imaginar e experimentar com audácia. Havia quem dissesse que ‘tesouras, pinças e cola não são acessórios da fotografia’, mas a sua aproximação ao grupo surrealista desmentiu tal asserção. Em vez de tirada, a fotografia podia ser imaginada e construída com o uso de objectos estranhos de função simbólica (objects trouvés), sombras exageradas, combinação de negativos (como acontece com ‘Os anos estão à sua espera’, de 1935) ou o recurso à fotomontagem (como é de certo modo o caso da perturbante foto colorida em 1935,  ’29, rue d’Astorg’, que combina uma velha fotografia de Versalhes com a imagem de um manequim decapitado de sua autoria). […] Tal como Paul Strand, Dora Maar apontou a câmara aos cegos. Ao contrário de muitos fotógrafos humanistas, Maar favorecia composições desorientadas que levam tempo a decifrar. A sensabilidade surrealista é difícil de apagar. […] O encontro com Picasso tudo mudou. O sadismo do pintor abraçou o masoquismo da retratada. E se é verdade que a arte de Maar levou Picasso a explorar os materiais fotossensíveis e as técnicas fotográficas (raios-x, clichés verre, etc.), afinal não muito diferentes das práticas de gravura, também é verdade que Picasso encorajou Maar a regressar à pintura que praticara no início de carreira. […] Enquanto a relação [dos dois] se desfazia, a pintura [de Maar] evoluiu para paisagens melancólicas e monocromáticas e naturezas-mortas. Passou quase uma década sem expor, mas a pintura ajudava-a a recuperar a sua estabilidade emocional e espiritual. Embora em tempos tivesse opinado que a ‘abstracção conduzia a uma parede’, nos anos 50 encontrou uma saída em paisagens cada vez mais abstractas e geometrizantes. Tornou-se uma mística reclusa. Quase não recebia ninguém e recusava-se a falar de Picasso (excepto aos amigos e amigas). A reconciliação entre a pintura e a fotografia deu-se na câmara escura quando, já nos anos 80, começou a produzir fotogramas a partir de negativos riscados, mordidos pelos ácidos e realçados pelas tintas – composições abstractas e diáfanas que são outras tantas paisagens da alma.

Jorge Calado, revista do semanário Expresso

#2316

Não precisamos de recorrer ao sistema totalitário para que a noção de ideologia adquira o valor pejorativo de falsa representação e engano. É possível isolar a dimensão ideológica dos mais variados discursos, mesmo daqueles que parecem inócuos e do senso comum, na medida em que eles naturalizam e fazem passar como evidência uma ideia construída por uma ‘visão do mundo’ que se torna dominante. Por exemplo, o boletim meteorológico, tal como ele é difundido nos media, está carregado de ideologia: ‘tempo bom’ é sempre aquele que serve as aspirações à comodidade e ao lazer de uma classe burguesa e urbana, enquanto ‘mau tempo’ é sempre o que constrange as realizações desse modo de vida. Para um agricultor, a ideia de ‘mau tempo’ e ‘bom tempo’ pode corresponder exactamente ao inverso.

António Guerreiro, ípsilon

#2314

Criar um equipamento tão subtil, complexo e sensível como o corpo humano. Essa é a nossa tarefa.

Charlotte Perriand, designer

#2313

Estava na Áustria, há seis anos, quando deixei de ver do olho esquerdo. Depois aconteceu tudo de modo muito rápido. Quase na mesma altura, o meu coração parou. […] De seguida comecei a ter uma dor numa perna e ao fim de três meses não podia andar. [O meu corpo] faliu. […] Decidi começar a escrever com a visão, o coração e as pernas que tenho. […] [Vejo] vultos. Há uma série de coisas que me dão a realidade. Os meus olhos não deixaram de ver. Mas o que vêem talvez não coincida com a maior parte daquilo que as pessoas vêem. Gosto muito do Paulo Nozolino e o que vejo nas fotografias dele não é o que lá está, se bem que também lá esteja. […] Gosto muito de Francis Bacon. Acho que existe uma homologia, se é que é possível falar assim, entre aquilo que ele pinta e o que eu escrevo. É a minha visão do mundo ou foi a visão que se foi construindo em mim. Não é uma visão amável. […] Se eu não tenho acesso ao corpo integral de uma pessoa, com certeza que isso se vai reflectir na minha escrita, e a própria fragmentação, usando a palavra de que não gosto, está aí. O meu olhar fragmenta, e é essa realidade que surge fragmentada que eu exploro.

Rui Nunes, escritor, revista do semanário Expresso

#2312

Por onde andam os jornalistas? Que sítios frequentam no dia a dia? Com que gente lidam habitualmente? […] A triste verdade salta aos olhos: a grande maioria dos jornalistas deixou de ir ‘para o terreno’. Deixou de andar pelas ruas e estradas deste país, de frequentar as gentes deste povo, para ver e ouvir o que se passa, para saber o que lhes interessa ou as preocupa na vida quotidiana. Vive sobretudo com colegas, amigos e companheiros em restaurantes, cafés e bares que fazem parte da rotina diária. Frequenta os habituais sítios de conferências de imprensa, estreias e recepções de toda a ordem. […] É assim que, muitas vezes, os nossos jornais dão a sensação de serem construídos por outros, e não pelas próprias redacções, […] deixando os jornais de ser resultado de jornalismo e de jornalistas, para o serem de [agências de] comunicação e de assessorias [de imprensa].
Nobre Correia, professor na Université Libre de Bruxelles, jornal Público

#2311

Num sentido metafísico, julgo que nunca conseguimos compreender totalmente a complexidade de um ser humano. […] Kurt Cobain era uma contradição, dentro de um mistério, dentro de um puzzle e essa, aliás, é uma das razões pelas quais as letras dele têm ainda tanta ressonância hoje. […] O refrão de ‘Smells Like Teen Spirit’? De que raio é que ele está a falar? Mesmo enquanto biógrafo, não me sinto capacitado para responder de forma definitiva. E não acho que mesmo ele nos conseguisse explicá-lo devidamente.

Charles R. Cross, biógrafo de Kurt Cobain, Ipsilon

#2310

Na guerra como na paz, as sociedades humanas não parecem ter outra solução para a gente considerada indesejável que a de a confinar entre muros e arame farpado.

Humberto Lopes, fugas

#2309

O porto de Longyearbyen [no arquipélago de Svalbard, na Noruega] está deserto. Os barcos de recreio estão em doca seca e a neve chega aos cascos apesar das estacas que os elevam do solo. Depois de desligarmos o carro – e se ignorarmos a nossa respiração esforçada por trás das golas polares que toda a gente usa, qual balaclava, para proteger orelhas, nariz, boca e garganta dos 22 graus abaixo de zero – o silêncio é opressor. […] À frente do cais de embarque fique o fiorde que devia estar totalmente congelado, mas não está. […] As casas, os cafés, as lojas, a água, os hotéis e infantários, tudo é aquecido com carvão – e em todo o lado a temperatura está fixada entre os 24ºc e os 28ºc permanentemente. O que quer dizer que quem saia de casa no meio do inverno entra num mundo que está cerca de 50ºc mais frio do que aquele do qual saiu. O vento, quando sopra, faz chorar, as lágrimas congelam e o gelo faz colar as pestanas umas às outras. Quando passamos do frio para dentro de um lugar fechado, notamos as maçãs do rosto vermelhas e quentes ao toque.

Ana França, semanário Expresso

#2308

‘Dança sem Vergonha’ é o título do solo […] em que o coreógrafo e bailarino David Marques levanta o véu sobre algo que não quis esquecer: a descoberta recente do quão importantes e fortemente cravados na sua biografia estão os momentos em que dança, livremente e sem vergonha, ao som de canções. […] Identificou, assim, três momentos que vemos plasmados na sala: o estúdio de dança no instante ’em que alguém põe uma música e aquele momento deixa de ser um aquecimento, passa a ser outra coisa qualquer’; o quarto, onde dança imaginando-se no palco, mas com a liberdade de se saber sozinho; ou a discoteca, quando a dança ocupa um lugar social. À medida que foi reflectindo sobre estas danças não preparadas para serem mostradas, David começou a aperceber-se do quanto a sua curiosidade ficava alerta para ‘os momentos em que surgiam danças que via resvalar para uma dança contemporânea’, não conseguindo fugir à sua formação, ‘mas que não vinham daí’. Decidiu investigar mais e, por exemplo, filmar-se durante uma semana em casa, proporcionando situações em que a dança acontecesse. Também essas imagens são postas agora em cena, ao lado de uma cama, dando visibilidade a estas ‘danças com poucas ou nenhumas testemunhas’ e, portanto, ‘despreocupadas ou livres’, […] sabendo-se David Marques no paradoxo de estar a tornar espectáculo as tais danças que existiam apenas abrigadas dessa exposição pública.

Gonçalo Frota, jornal Público

#2307

Venho de uma família de engenheiros de minas. O meu avô paterno era médico, mas o meu pai e o irmão mais velho eram engenheiros de minas. […] Há pequenas coisas que retenho de miúdo. O mundo das minas é muito curioso. É uma espécie de arquitectura invertida. Lembro-me de que havia nos escritórios um gabinete de projecto de minas. Faz-se um poço e depois, em vários níveis, fazem-se galerias à procura de onde estão os filões de minério. E tinha uma coisa, de que nunca mais me esqueci, que era uma cómoda enorme, aí com dez prateleiras com uns vidros enormes, um chão de luz em baixo, e eles desenhava cada nível – não havia computadores. Eram gavetas de vidro onde estavam desenhadas as galerias daquele nível. Quando se olhava de cima via-se um desenho tridimensional do poço e das galerias, como se fosse um grande formigueiro. Ver desenhar isso impressionou-me imenso, porque se estava a criar ali qualquer coisa, que depois visitei uma e outra vez, e percebi o que era.

Gonçalo Byrne, arquitecto, Ipsilon

#2306

Panarea é uma ilha italiana. Fica demasiado perto para ser exótica e demasiado longe para ser popular. Com pouco mais de 300 habitantes, integra o pequeno arquipélago das Eólias, no meio do Mediterrâneo, entre a Sicília, região à qual pertence, e a Calábria. […] Chega-se a Panarea por ar, terra e mar. Não, não é por qualquer uma das vias. É mesmo pela soma das três. Avião até Nápoles ou Palermo, umas largas horas ao volante até ao Porto de Milazzo e um ferryboat, com várias paragens e transbordos pelo meio. […] Paranea não tem carros, tem poucos turistas e não dispõe sequer de iluminação pública. Sem wifi e com o mínimo indispensável de cobertura de rede móvel, oferece uma visão de 360º graus sobre o mar Tirreno, que aqui é batido pelo seco, quente e africano vento Siroco, vindo da Argélia. […] A vida na ilha segue tranquila, dia após dia – praia, passeio, pôr do sol, jantar, dançar. Não há candeeiros na rua. Aliás, com noites iluminadas pela lua e pelo brilho das estrelas, a iluminação pública seria realmente inútil e não se sente a sua falta. Não há poluição luminosa em Panarea. Como não há poluição atmosférica, acústica e muito menos do solo. […] A ilha é especial e diferente. Mas o que a torna única é ficar ao lado de Stromboli, a ilha do vulcão com o mesmo nome, ainda em actividade, […] cujas erupções chegam a ser mais de 100 por dia e estão tão assustadoramente próximas – à noite é impossível não reparar na lava que escorre desde a sua cratera -, que se tornam familiares. Acordar e ver o vulcão. Almoçar a observar o vulcão. Adormecer a olhar para o vulcão. Serenamente.

Jorge Afonso Morgado, fugas

#2305

A verdade como ideia e a beleza como ideia continuam a existir mesmo que toda a beleza do mundo seja destruída, a ideia de verdade existe mesmo que toda a gente seja destruída.

Lawrence Ferlinghetti, ‘Rapazinho’

#2304

A poesia serve sobretudo quem a faz. Por compulsão e necessidade interior. Seja a poesia que nós aprecíamos muito ou apreciamos pouco. A poesia faz-se por compulsão. Assim como o serial killer mata por compulsão. É exactamente a mesma coisa. Quem consegue fazer poesia deve ficar feliz. […] Algumas obras servem a iluminação da consciência. Trazem-nos ideias sobre a consciência do ser humano que nós não tínhamos. Nem a filosofia que é muito abstracta, nem a teologia – que também tem outro tipo de abstracção – consegue dar o que a poesia dá, um modo de ver a Humanidade que não se encontra noutro lugar. […] A poesia não tem de ser comprovada. Apetece-me muitas vezes dizer que a poesia é contrabando. Porque o normal é a chatice da prosa, que tem as leis, as regras. A prosa vem do latim ‘prosus’, que signidica ‘sempre em frente’, ‘sempre avante’. Até chegar ao ponto onde quer. A poesia não, é sinuosa, faz contrabando de ideias e palavras.

Alberto Pimenta, semanário Expresso

#2302

Os anos 80 e 90 [são] o tempo de alguma euforia urbana que retirou Lisboa da letargia em que estava mergulhada; é o tempo em que a alta cultura e a cultura de massas convivem nalguns meios com uma certa harmonia e dão lugar a uma convivialidade mundana que tinha muito de ingénuo, mas extremamente jubilante.

António Guerreiro, Ipsilon

#2301

O mundo divide-se entre as pessoas que escolhem um restaurante pelo ambiente e as que o escolhem pela comida.

Carla Fonseca, fugas

#2300

A expectativa em relação a outros, sejam grupos ou indivíduos, é sempre uma desqualificação daquilo que é mais interessante no ser humano, que é justamente poder ser aquilo que se quer ser.

Rafael Esteves Martins, assessor parlamentar, semanário Expresso

#2299

Tal como os ratinhos do flautista de Hamelin, o sistema político português segue alegremente o seu caminho, até se despenhar com estrondo.

João Miguel Tavares, jornal Público

#2298

Tenho muito orgulho no meu trabalho. Há quem mostra colecções de moedas, de borboletas… eu mostro o meu trabalho de fotografia. […] Não tenho assim tantas referências na fotografia. Procurei-as noutros universos criativos. […] [Na verdade], a minha base vem da BD [e da] ficção científica.

Álvaro Rosendo, fotógrafo, Ipsilon

#2297

A Eslovénia sempre teve uma relação muito íntima com a apicultura. […] O pequeno-almoço esloveno (agora transformado em dia da comida eslovena), consiste em pão, mel, manteiga, leite e maçãs. [sendo que] as colmeias fazem parte da cultura e da arquitectura [local]. Em Ljubljana, […] é possível observar a intimidade entre a população e a apicultura, […] remontando a tradição da apicultura a tempos pré-históricos. […] Antes de serem colocados os trilhos dos eléctricos, em 1901, o mel era conduzido ao longo de uma pequena artéria que ainda hoje tem a toponímia desse tempo de antanho: Medarska ulica, a rua dos vendedores de mel. […] Ljubljana tem, inclusive, uma Associação Urbana de Apicultores, liderada por Gorazd Trusnovec, um homem dinâmico que herdou a paixão pelas abelhas do seu avô e que não hesitou em colocar colmeias no topo do Hotel Park (13 andares), de onde é extraído o mel que é servido ao pequeno almoço aos clientes. E, mais ainda, Ljubljana tem o chamado trilho das abelhas, uma viagem fascinante que leva o turista não apenas a conhecer os lugares mais emblemáticos da cidade mas também alguns daqueles que estão mais intimamente ligados à apicultura, como os Dias do Mel, um evento organizado pela Casa de Mel Boznar, com provas, com leituras, apresentações e workshops durante os quais são confeccionados pão e biscoitos de mel e ainda com tempo para apreciar como se pintam os painéis das colmeias ou para exposições.

Sousa Ribeiro, fugas

#2296

Caridade Doçura está sentada na sanita a comer os seus dois ovos cozidos, enquanto eu estou na cozinha a comer a minha sanduíche de presunto e a beber café. É sempre assim, mas não pensem que temos guetos. Se há um gueto, não sou eu que lá estou. Ela é a minha mulher-a-dias. Vem limpar o meu pequeno apartamento de três divisões uma vez por semana, no meu dia de folga da loja de bebidas. – Paz – diz-me sempre. O Senhor veio cá abaixo e levou-me para o Paraíso. É uma mulher baixa, de peito liso, cabelo encaracolado e com um rosto tranquilo que irradia luz. Antes de morrer, a minha mãe tinha uns olhos como os dela. A primeira vez que a Caridade Doçura veio trabalhar a minha casa, há pouco mais de um ano e meio, cometi o erro de a convidar comigo à mesa da cozinha para almoçar. Ainda não tinha recuperado completamente da perda de Ornita, mas sou o tipo de homem – Nat Lime, quarenta e quatro anos, um solteirão com uma careca que não pára de crescer na parte de trás da cabeça e que podia à vontade perder uns oito quilos – que gosta de companhia, desde que a tenha. Ela aqueceu os dois ovos cozidos, sentou-se e deu uma pequena dentada num deles. Mas, passado um minuto, parou de mastigar, levantou-se e levou os ovos numa taça para a casa de banho e, desde então, é sempre aí que ela come.

Bernard Malamud, ‘Negro é a Minha Cor Preferida’

#2295

Neste momento em que escrevo estou num edifício de salas amplas, pé-direito de quase quatro metros, janelas escancaradas para o Chiado, está calor ainda. Da cidade calma que Lisboa era vem agora um som demasiado contínuo, constante, de vozes de várias línguas, de carros, sirenes também – tantas agora! – de buzinas, autocarros, eléctricos, tuc-tucs (!!!!), motos, cantores de rua, músicos e obras. Um bruaá infindável e sem descanso, que nem à noite pára.

Guta Moura Guedes, revista do semanário Expresso

#2294

Uma vez vi um documentário sobre um casal norte-americano. Estavam juntos há 20 anos e perguntaram-lhe o que os mantinha juntos. Ele respondeu: ‘Eu ainda quero ouvir o que ela tem para me dizer.’ Penso nessa frase quando escrevo. Estar disponível para ouvir o outro, sabendo que no fundo o que queremos é ter alguém que ouça aquilo que temos para dizer. 

Sandro William Junqueira, Ipsilon

#2293

Embora fosse enviada de avião, num voo de pouco mais de dez horas, uma carta entre Brasil e Portugal podia levar [em 1973] até dez dias a chegar. Não se sabe o que a carta ficava fazendo durante todo esse tempo. O curioso é que essa demora não nos perturbava – tudo então era mais lento, mais compatível, talvez, com os batimentos cardíacos.

Ruy Castro, Diário de Notícias

#2292

[Na visita às Berlengas], continuamos pelo percurso da Ilha Velha, ‘um trilho que poucas pessoas fazer’, avermelhado, e que ‘sobrevoa’ o Pesqueiro do Capitão ou o Carreiro dos Cações, cavidades que deixam ver as águas transparentes transformarem-se no oceano infinito. Apesar do ruído constante das gaivotas, no ar há uma grande bola de silêncio, o silêncio do isolamento, cruzado, de vez em quando, por imagens lunáticas, como um rapaz solitário a apanhar insectos com uma rede branca, uma estudante a medir lagartixas sentada numa pedra, o cadáver de uma gaivota ou os dois vigilantes da ilha a conduzir um jipe (um dos únicos dois veículos em circulação) num lugar sem carros. […] Mas porquê a Berlenga? Porquê viver numa ilha onde não há médicos e a família nem sempre consegue chegar, onde no Inverno as ondas batem à porta de casa, uma casa exígua onde se janta com os camaradas da pesca, se bebe com os camaradas da pesca, se dorme com os camaradas da pesca? ‘Quantas noites, em Janeiro, não há barcos, não há luz, não há nada, e aí é aquela parte em que a gente diz: ‘uau, tenho uma ilha só para mim! É o silêncio absoluto’. Essa é a melhor parte de todas’, responde Zé Manel [habitante no bairro dos pescadores na ilha da Berlenga Grande, à costa de Peniche].

Rute Barbedo, Fugas

#2291

Se os habituais desejos de final de ano se cumprissem sempre, teríamos a cada novo ano um melhor do que o anterior. E isso, repetindo-se há décadas, já nos teria levado ao paraíso.

Nuno Pacheco, jornal Público

#2290

As obras de Leonor Antunes criam lugares cujas qualidades formais, materiais e poéticas se unem propondo uma experiência sensual e rememorativa: as suas obras apelam, em primeiro lugar, a um modo sensível de compreensão (o corpo que sente e que guia a inteligência) que activa memórias inscritas no lugar, no desenho e nos materiais. […] A relação com a verticalidade, tema essencial do trabalho da artista, surge a suspensão como programa artístico: esculturas contra a gravidade que estabelecem um jogo inesperado com as acções de erguer, trepar, subir. Apesar da gravidades, condição inalienável de todo o elemento material, Leonor Antunes faz da suspensão o lugar natural da escultura, o qual se prolonga nas relações entre esconder/mostrar, opacidade/transparência. Trata-se de um jogo, aqui no sentido de acção não exclusivamente lúdica e tal como guardado nas palavras inglesa e alemã play e spiel, que permite a esta artista construir esculturas ou, melhor, conjuntos escultóricos que devem ser entendidos na sua dimensão atmosférica, ou seja, na sua capacidade não violenta de transmutar a percepção e a experiência de um lugar, de um espaço, de um objecto.

Nuno Crespo, Ipsilon

#2289

A tecnologia digital está longe de ter tido o impacto, por exemplo, que a invenção da imprensa teve no século XV e a subsquente explosão de informação. A incapacidade de lidar com novos métodos de tecnologia de informação pode derrubar Estados – mesmo Estados poderosos, como o Império Otomano, que proibiu a imprensa durante anos.

Christopher Andrew, historiador, revista do semanário Expresso

#2287

Da Associação dos Estudantes Portugueses em França fizeram [a Noémia Simões de Ariztía] um convite de todo inesperado. Uma bolsa de estudo em Belgrado, antiga Jugoslávia, hoje capital da Sérvia, do outro lado da Cortina de Ferro. Uma oportunidade única para fazer o ensino superior. […] Tudo o que tinha coube num enorme baú. Quando se lembra destes tempos, recorda-se sempre a passar fronteiras arrastando um baú. E daquela estranha sensação de quem entra em território desconhecido. Investiu quase todo o dinheiro na passagem do Orient Express. De Triste entraria na fronteira jugoslava. Era agosto de 1965 [e] Noémia Simões chegou a Belgrado. […] Quando deu por si, estava instalada na residência de estudantes, partilhando espaço com alunos de todos os cantos do mundo. Na universidade, havia um enorme contingente sul-americano, da qual ela naturalmente se aproximou. Era fácil ficar perdido em Belgrado quando não se sabe servo-croata. Por alguma razão se formou um dia a Associação dos Estudantes Latino-Americanos e Ibéricos, à qual Noémia obviamente pertencia. Noémia partilhava o quarto com uma sérvia, que numas férias a convidou para conhecer a casa dos pais. Noémia já conhecia de Belgrado alguma coisa, mas da Sérvia profunda, não conhecia nada. Estava no curso de Sociologia. Os dias que passou com essa família foram uma lição muito importante para si. A ruralidade encontra muitas analogias, tal como a pobreza. Nesses dias, Noémia pensou muito em Portugal. 

Luís Pedro Cabral, revista do semanário Expresso

#2286

São Paulo desfigura-se anos após ano, demolição após demolição, […] construção após construção. […] A via elevada que rasga a cidade [‘O Minhocão’] foi inaugurada em 1970 com o intuito de desafogar o trânsito e funciona de segunda a sexta das 7h às 20h, permanecendo fechada a veículos automóveis nos demais dias e horários, altura em que os seus 3400 metros ganham uma segunda vida, cheia de atletas mais ou menos amadores, bancas de sumos naturais e outros vendedores ambulantes e até alguns projectos culturais que se vão exibindo às janelas e varandas do ‘vale’ que a limita.

Luís Octávio Costa, fugas

#2285

A identidade é algo em constante evolução. […] É a compilação de todas as histórias que juntamos e carregamos durante a vida, assim como uma identificação com factores que não estão necessariamente relacionados com o tempo e o espaço em que vivemos. […] Interessa-me tudo aquilo que flui. Gosto do que não tem forma física. Além da beleza e da espectacularidade do fenómeno natural, as cascatas mostram-nos, com a água a cair lentamente, a passagem do tempo e ilustram a conexão entre tempo e espaço. […] A realidade, diria, é relativa. É algo que coproduzimos e que, em última análise, é negociável [e] é sempre desafiada por aquilo que o filósofo Timothy Morton chama de hiperobjectos, que se tratam de fenómenos, como o aquecimento global, com dimensões espaciais e temporais demasiado vastas para a finitude da nossa compreensão e das nossas vidas efémeras.

Olafur Eliasson, artista, revista do semanário Expresso

#2284

Mas, Victoria, se me amasse um pouco… eu não sei, mas diga-mo, mesmo que não seja verdade. Peço-lhe! Prometo-lhe que virei a ser alguém, alguém de inaudito. Não faz ideia do que sou capaz de ser. Quando penso nisso, sinto-me pleno de recursos por explorar. Por vezes, à noite, tenho a impressão de que as ideias brotam de mim, ando de um lado para o outro no meu quarto, a bambolear, sob as visões que me assaltam. No quarto ao lado, vive um homem que impeço de dormir; então, ele bate na parede. Ao alvorecer irrompe pela minha casa, furibundo. Não faz mal, não me importo, uma vez que pensei em si toda a noite, com a impressão de a ter ao meu lado. Vou à janela e canto; começa a clarear; os choupos sussurram ao vento. ‘Boa noite!’, digo eu para o dia, mas é para si. ‘Agora ela dorme’, penso, ‘boa noite, que Deus a proteja’. E é assim todas as noites.

Knut Hamsun, ‘Victoria’

#2283

Depois de uma procissão de vampiros em marcha muito lenta, chega-se a um jogo em terra batida onde Darth Vader passa a bola a Sherlock Holmes ante o olhar curioso de uma figura que parece um gnomo. Há colegiais japonesas, fadas, personagens da mitologia, caveiras que pregam sustos de mentira. Tudo normal ao terceiro dia [da Feira do Livro de Leipzig, na Alemanha]. É uma multidão de gente mascarada dos seus heróis. A maior parte, adolescentes e jovens adultos que durante os quatro dias da feira alteram a imagem da cidade, como se vivessem dentro dos livros que lêem; passeiam pelas ruas, andam de eléctrico, concentram-se no pavilhão temático que parece um planeta de fantasia e dispersam-se por todos os outros, ouvem leituras de poesia, sentam-se entre a plateia que assiste aos debates sobre edição, assistem a conversas com autores, diluem-se entre os visitantes. 

Isabel Lucas, jornal Público

#2282

O trabalho de Laure Prouvost (Lille, França, 1978) é conhecido pelas instalações que faz em que não há o predomínio de nenhum tipo de objecto, disciplina ou linguagem, mas onde diversos elementos são utilizados de forma irónica, alegórica e sempre inesperadamente. Quer sejam filmes, tapeçarias, pinturas, esculturas, fotografias, peças sonoras, frases escritas, está sempre em causa desenvolver modos de interpelar o espectador e fazê-lo mergulhar num universo onde as fronteiras entre ficção, realidade e sonho estão em permanente negociação. Podemos entender que cada uma das suas exposições materializa uma narrativa, aqui no sentido lato, em que o dispositivo ficcional é um meio para se aproximar, criticar, interrogar e interpelar a realidade. As suas estratégias expositivas são complexas e caracteriza-as uma estética surrealista onde a artista ensaia outras formas de compreender e pertencer ao mundo: cria túneis subterrâneos, inverte os percursos expositivos habituais, coloca aparelhos electrónicos a conviver com cabeças de humanos, polvos, plantas, etc. […] Independentemente do contexto expositivo mais ou menos institucional, desenvolve um pensamento próximo de Lewis Carrol e das aventuras de Alice [no País das Maravilhas], em que não há diferenças ontológicas significativas entre humanos, coelhos, plantas ou casas, e em que a própria estrutura fixa do mundo está em permanente metaformose. A sua inscrição neste processo metafórico e de transformação é o que justifica a sua preferência por universos líquidos em que todos os indivíduos, independentemente do seu lugar numa hierarquia ontológica, estão ao mesmo nível. Nos universos compostos por Prouvost as barreiras da individualidade desfazem-se e a artista, à maneira de Demócrito, propõe uma visão em que a individualidade é substituída por uma experiência de comunhão e dissolução formal e material de tudo. Mas, para além destas ideias de fusão, comunhão, comunidade e co-pertença, as suas propostas são sempre muito críticas: em primeiro lugar relativamente à lógica da individualidade que caracteriza a vida contemporânea, depois às lógicas de poder sobre a Terra que colocam em risco as condições de possibilidade de toda a vida.

Nuno Crespo, Ipsilon

#2281

[Em Vitória, na ilha de Gozo, Malta] há a velocidade de uma cidade moderna, sobretudo de manhã cedo, [ao passo que] ao fim do dia vem uma tranquilidade quase rural.

Andreia Marques Pereira, fugas

#2280

Impressionam-me cartas escritas no dia ou na semana da morte de quem as redigiu. Nós sabemos de um segredo que a pessoa que escreveu ainda não sabe. Porque quando escreveu não imaginava que morreria daí a umas horas ou dias. Então é como se soubéssemos mais do que a pessoa que está a escrever. Há milhões de aspectos que fazem destas cartas coisas muito atraentes.

Pedro Corrêa do Lago, coleccionador de manuscritos, revista do semanário Expresso

#2279

Eu sei que custa a acreditar a quem já nasceu no tempo da internet e dos telemóveis, mas houve um tempo em que os assaltantes dos bancos entravam inesperadamente no banco que iam assaltar, uma vez que o factor surpresa era muito importante para o êxito da operação. Iam, calcule-se, com máscaras nas caras para não serem reconhecidos e eram sempre um pequeno grupo para correrem menos riscos. Se houvesse câmaras de imagem nas instalações do banco, destruíam-nas. Depois de sacarem o dinheiro, desapareciam o mais depressa possível. Não mais eram vistos nas imediações dos bancos e, se eram apanhados pelas autoridades, iam presos.

Hoje em dia, os assaltantes dos bancos entram de cara descoberta e de peito feito nos bancos. São nomeados ou eleitos para os conselhos de administração ou outros órgãos de gestão. Aí permanecem anos a fio, rodando, por vezes, entre diversos bancos. Não têm receio das câmaras, dão a cara, conferências de imprensa e entrevistas. Não têm pressa em sair dos bancos, antes pelo contrário. Resistem tenazmente a quem os procura afastar e, verdade seja dita, há leis que os protegem dada a sua inequívoca idoneidade.

E, quando são afastados dos bancos, passamos a ouvi-los e a vê-los a lamentarem-se publicamente, naturalmente magoados e sentidos com tão grave injustiça.

Francisco Teixeira da Mota, advogado, jornal Público

#2278

O tempo é o grande problema hoje da arquitectura e alguma da minha inadequação em fazê-la. […] A coisa mais segura é o efeito do tempo. […] Como é que todos os dias, quando olho para um projecto, posso concluir que uma coisa não está bem e tem de sair. A censura é [assim] dada pelo tempo. […] [Neste momento] estou numa fase de experimentar tudo. […] Gosto de estudar, de copiar, de viajar, de ver aquilo e aqueloutro. […] [E] gosto de buracos, faço muitas coisas enterradas. […] Nunca se fala de truques em arquitectura, mas fazem-se muitos truques. […] A história da arquitectura é a história das ruínas reconvertidas. […] Estou convencido de que a arquitectura, tal como eu a entendo, acabou.

Eduardo Souto de Moura, arquitecto, Ipsilon

#2277

O [Sport Lisboa e] Benfica é um clube diferente que te ajuda com tudo. Se tens um problema em casa ligas [ao clube] que te vai mandar alguém lá para resolver o assunto. No dia em que o gato do Vlachodimos ficou preso numa árvore, ele ligou ao Benfica e não aos bombeiros…

Mile Svilar, guarda-redes de futebol, A Bola

#2276

A primeira coisa que me leva a fazer uma coisa é saber que ninguém está à espera que aquilo seja feito.

Bruno Nogueira, cómico e actor, revista do semanário Expresso

#2275

[Hoje em dia] utilizamos poucas palavras. E sendo mais curto o léxico, também é mais curto o pensamento. É que quando se usam bengalas e lugares-comuns não se pensa pela própria cabeça.

Manuel Monteiro, revisor de língua portuguesa, jornal Público

#2274

Lisboa é [uma cidade] feita de pessoas de todo o mundo, mais até de pessoas de fora do que das que cá nasceram. […] É muito rica em termos de construção de identidade: ela é africana antes de ser europeia, é árabe antes de ser cristã. [Lisboa] tem uma história muito rica que aceita todo o tipo de pessoas.

Batida, Agenda Cultural de Lisboa

#2273

O que é ser um Homem? A resposta nascia-me dos passeios que dava. Distraía-me uma alma cheia de mossas para endireitar no bate-chapas. Ser uma homem? Que estranha coisa.

Ruben A.

Ruben A. andou entre a Itália e a Grécia, numa espécie de grand tour à maneira dos viajantes do século XIX, mas ao [seu] modo. Das ilhas gregas, que visitou na companhia do filólogo Rosado Fernandes, trouxe anotações delirantes que compôs em ‘Um Adeus aos Deuses’ e também uma história que ficou célebre. No grego Parténon, conseguiu autorização do director para visitar o museu sozinho e passear nu entre os colossos de kouros, para ‘poder dialogar de igual para igual com os deuses’. ‘É um excêntrico no verdadeiro sentido etimológico da palavra. A pulsão de saltar fora do eixo é o seu modo de ser e o motor da obra’, aponta Dália Dias [que escreveu uma tese de doutoramento sobre Ruben A.]

Ana Soromenho, revista do semanário Expresso