#2168

Cresci quando cresci e desenvolvi um conceito de filmes – ou do que eram e do que podiam ser – que era tão distante do universo Marvel como nós na Terra estamos de Alpha Centauri. Para mim, para os realizadores que amo e respeito, para os meus amigos que começaram a fazer filmes por volta da mesma altura que eu, o cinema tinha a ver com revelação – estética, emocional e espiritual. Tinha a ver com personagens – a complexidade das pessoas e as suas naturezas contraditórias e às vezes paradoxais, a forma como se magoam e se amam umas às outras e como de repente se deparam consigo mesmas. Tinha a ver com confrontar o inesperado no ecrã e na vida que ele dramatizava e interpretava, e com expandir a noção do que era possível nessa forma artística. E isso era a chave para nós: era uma forma de arte, […] e defendíamos o cinema colocando-o ao nível da literatura ou da música ou da dança.

Martin Scorsese, ‘The New York Times’ / revista do semanário Expresso

#2167

O meu pai dizia que a única forma de sair do inferno do comunismo era aprender línguas. Aprendi inglês, mas sobretudo francês, as ideias de Voltaire, [Denis] Diderot, [Jean Jacques] Rousseau, a literatura francesa, [Marcel Proust], Colette, etc. […] Penso que consegui constituir para mim mesma uma vida, um caminho particular, como se vivesse numa ilha. Sou insular. O meu marido tem uma casa, herdada há gerações, na Île de Ré, e eu vejo-me, enquanto francesa, como uma ilha de França. E a França é também uma ilha, isto é, ao mesmo tempo compacta, sobrevivente, mas acessível.

Julia Kristeva, filósofa, linguista, psicanalista, revista do semanário Expresso

#2166

‘Jorge Amado – Uma Biografia’ [de Josélia Aguiar] colige as fontes do acervo, de arquivos e da família com entrevistas e rigorosa investigação histórica. […] Basta começar, vem a descrição do primogénito de Eulália e João, que nasceu em 1912 ‘com cara de turco’. Passar os olhos pelas origens, desde a mãe contadora de histórias que vivia ‘numa quase realidade paralela’ e a infância entre adultos ao colégio jesuíta […] [para aos 23 anos ser já considerado] um dos maiores escritores que o Brasil tem. […] ‘Em geral, meus personagens são figuras do povo e eu os conheço bem. […] Sou um homem sem grupos literários, sem mestres e sem discípulos. Em compensação, sou um escritor que vive e sustenta sua família com o que escreve. Creio que sou um escritor do qual o povo é amigo’, diz [Jorge Amado]. […] [Ao todo o autor publicou] quase 50 livros, editados em 80 países e 49 idiomas, além do braile. […] Não recebeu o Nobel, mas em 1994 foi distinguido com o Prémio Camões. Nessa atura vivia entre o apartamento em Paris e a Bahia, onde em 2001 o seu coração deixou de bater. O que vive dele [a sua obra], porém, não se extingue.

Luciana Leiderfarb, revista do semanário Expresso

#2165

O sofrimento sempre me havia parecido uma segunda oportunidade e não estava segura de alguma vez vir a descobrir se isso era verdade e, caso o fosse, por que motivo, uma vez que até agora não conseguira compreender o que essa oportunidade me permitia alcançar. Sabia apenas que esse sofrimento era acompanhado por uma espécie de honra, caso conseguíssemos sobreviver-lhe, e que nos permitia uma relação com a verdade que parecia mais próxima, embora na verdade fosse idêntica à fidelidade de permanecer sempre no mesmo sítio.

Rachel Cusk, ‘Kudos’

#2164

Na Islândia, para que nos levem a sério na literatura, temos de escrever um livro de poesia. […] O meu nome Audur significa ‘vazio, coisa vazia’. Mas também algo que pode significar ‘próspero’. Quando descobro o significado do meu nome fiquei bastante contente, porque ligo vazio a liberdade. E isso é a coisa mais importante para nós, os escritores, termos liberdade para criar o que quisermos, ninguém nos diz o que devemos escrever. Mas voltando ao nome, em islandês há vinte e quatro formas de dizer ‘nada’, dependendo do tipo de ‘vazio’.

Audur Ava Ólafsdóttir, Ipsilon

#2163

Há uma ideia de cinemático que considero subjacente a muitos dos meus trabalhos. […] Gosto muito de evocar e explorar as experiências pré-cinemáticas das lanternas mágicas, das fantasmagorias (projecção de imagens assustadoras sobre superfícies semitransparentes ou em paredes, que no século XIX se tornou muito popular em Inglaterra). Agrada-me a ideia de movimento ou de algo que está em movimento. […] Quando dizemos que algo tem essa característica, pensamos numa esfera de influência que rapidamente relacionamos com o cinema. Todos temos uma certa noção do que é e também que é mais amplo do que o cinema. O cinemático pode ser uma escultura, um vaso de flores. Ou até o espaço urbano, quando o percorremos. Estamos a criar uma sucesso cinemática quando, com o nosso movimento, fazemos as vitrines e as coisas aparecerem. A cidade também pode ser um lugar onde o cinematográfico se manifesta.

Anna Francheschini, artista, Ipsilon

#2162

A comédia é o homem que se oferece como espectáculo ao homem. […] Têm graça as pessoas iguais a outras, as pessoas que desempenham uma tarefa ou repetem uma fórmula, as pessoas embaraçadas com o seu próprio corpo, porque em todas essas situações há um sujeito que se transforma em máquina, ou uma máquina avariada. […] Tratamos o outro como um mecanismo avariado, um tipo humano genérico (o avarento, o misantropo), um invólucro sem lado de dentro, uma superfície entendida enquanto superfície. O cómico, escreve Henri Bergson, não se dirige às emoções, mas à inteligência pura. E por isso, ainda que possa ser crítico, ou transformador, o cómico tem qualquer coisa de malícia, de maldade, de amargura.

Pedro Mexia, revista do semanário Expresso

#2161

Vejo ópera sempre que posso, seja onde for. Para mim, continua a ser uma das formas de arte mais perfeitas, reunindo, entre muitas outras, duas áreas que me são particularmente caras: a música e o design.

Guta Moura Guedes, revista do semanário Expresso

#2160

Há acasos na vida que mudam completamente o que tínhamos imaginado para o nosso futuro. Se acontecem por acaso ou não – dos milhares de acasos que nos acontecem, porque é que alguns se encaixam em nós e outros apenas nos fazem tangentes?

José Gameiro, revista do semanário Expresso

#2159

‘Le Chef d’Orchestre’ é uma dança de puro movimento abstracto, ao som de Shostakovich, para 20 bailarinos. […] A ideia de partida do coreógrafo [Paulo Ribeiro] foi o fascínio pelo papel do maestro, ‘como, com os gestos amplos e que parecem ser sempre os mesmos, consegue dirigir orquestras’. […] Escolheu uma música – o 3º movimento da ‘8ª Sinfonia’ – e um maestro – Miquel Bernat – que pudesse transmitir aos bailarinos a partitura dos seus movimentos. A diferença, neste caso, é que os instrumentos são os corpos. Há cerca de cinco minutos do espectáculo em que os 20 bailarinos dançam os gestos de um maestro que dirige uma composição de Shostakovich, mas essa partitura inicial rompe e irradia em muitas outras direcções: tem expressão nas pernas, no tronco, na cabeça, porque Paulo partiu daí também para desenvolver e continuar a compor movimento.

Claudia Galhós, revista do semanário Expresso

#2156

Assinale-se a presença da actriz Isabel Ruth como protagonista [do filme ‘Cinzas e Brasas’, de Manuel Mozos], uma mulher com um rosto que tanto pode ser um mapa como um enigma.

Jorge Leitão Ramos, revista do semanário Expresso

#2155

A burocratização dos costumes, mesmo dos mais libertários, veio para ficar, não há escatologia que o negue.

Ana Cristina Leonardo, revista do semanário Expresso

#2154

O burro do presépio sempre me comoveu. […] Dou comigo a pensar, […] poderia chamar-se ‘Platero’, como o de Juan Ramón Jiménez. Ou então, como o de George Orwell [em ‘Animal Farm’], ‘Benjamin’.

José Tolentino Mendonça, revista do semanário Expresso

#2153

O projecto Umuganda é o principal responsável pela fama de que o Ruanda vai gozando além-fronteiras pela sua limpeza, pelas ruas bem pavimentadas, pela ordem e segurança que não se sente, por exemplo, na Tanzânia o no Quénia, num perfeito contraste com o que sucedia no início deste século, quando, perante a indiferença geral, Kigali era um amontoado de lixo, um mar de plástico. Nos dias de hoje, a capital do Ruanda, assente sobre pitorescas colinas, é um exemplo de asseio, com as suas rotundas onde crescem a relva e as flores, com árvores plantadas um pouco por todo o lado, com os seus passeios e as próprias valetas (limpas cinco vezes por dia) imaculadas, a juntar a uma população hospitaleira e orgulhosa da mudança operada depois de anos de colapso económico. […] Numa manhã, já com o sol subindo no céu azul, entrei no mercado de Kimironko, no bairro homónimo de Kigali, passeando-me no meio daquele caleidoscópio de cores e de cheiros. Não via, por mais que procurasse, um saco de plástico. Quem comprava, munia-se de um papel. Há mais de dez anos que o Ruanda baniu, definitivamente, os sacos de plástico.

Sousa Ribeiro, Fugas

#2152

Recordo que, em poucos minutos, fiquei sozinha no grande passeio porque as pessoas corriam para apanharem os escassos táxis ou lutavam para se encaixarem no eléctrico. Uma daquelas velhas carroças puxadas por cavalos que voltaram a aparecer depois da guerra deteve-se diante de mim e eu tomei-a sem titubear, causando a inveja de um senhor que se lançava, desesperado, no seu encalço, agitando o chapéu.

Carmen Foret, ‘Nada’

#2151

Gostei muito desse livro [‘The Shallows’, de Nicholas Carr], sobre as mudanças neurolinguísticas e neuro-sensoriais na época das multitarefas e da Internet. Desde o começo da humanidade, a descoberta da leitura em silêncio, interior, que chegou muito depois da escrita, levou ao maior grau de concentração na existência do homo sapiens. Porque o ser humano torna-se demiurgo, cria imagens a partir de tinta e papel. E a concentração é uma coisa quase impossível neste mundo de hoje, […] há um ambiente de distracção permanente.

Jorge Drexler, músico, jornal Público

#2150

Uma crónica, como a palavra se farta de indicar, é sobre o tempo.
Miguel Esteves Cardoso, jornal Público

Nem todos os grandes escritores se aguentam no difícil trânsito entre a ficção e a crónica. Perante as limitações próprias de uma página de jornal, com formatação física e prazos de entrega apertados, alguns tropeçam, facilitam, baixam a guarda, e deixam sair em letra de forma meia dúzia de ideias mal atamancadas que lhes causariam embaraço, ou mesmo vergonha, se as incluíssem nos seus contos e romances. Escrever sobre tudo e mais alguma coisa, mas sem trair a essência do seu estilo – eis o grande desafio do autor que se compromete a publicar na imprensa com regularidade. O risco maior, porém, é a usura do tempo. Quanto mais colados à realidade, mais depressa envelhecem os textos.
José Mário Silva, revista do semanário Expresso