#5336

Se ainda falo no plural sobre aquele dia [do enterro da minha mãe], ao hábito se deve, porque a goma dos anos nos soldou como às partes de uma espada com que nos defendêssemos uma à outra. Enquanto redigia a inscrição para o seu túmulo, percebi que a primeira morte acontece na linguagem, nesse acto de arrancar os sujeitos do presente para os fixar no passado. Transformá-los em acções acabadas. Coisas que começaram e terminaram num tempo extinto. Aquilo que foi e não voltará a ser. A verdade era essa: a minha mãe já só existiria conjugada de outra forma. Ao sepultá-la, encerrava a minha infância de filha sem filhos. Naquela cidade, no momento crítico da morte, perdêramos tudo, até as palavras no tempo presente.

Karina Sainz Borgo, ‘Cai a Noite em Caracas’

#5332

Quando chegámos ao cemitério, já a sepultura estava aberta com duas valas. Uma para ela, outra para mim.

[…]

Enterrámos a minha mãe com as suas coisas: o vestido azul, os sapatos pretos sem cunha e os óculos bifocais. Não podíamos despedir-nos de outra maneira. Não podíamos separar aqueles artigos dos seus gestos. Teria sido como devolvê-la incompleta à terra.

Karina Sainz Borgo, ‘Cai a Noite em Caracas’

[…]

‘Estamos no Ar’ é a estreia de Diogo Costa Amarante no campo da longa-metragem, [numa história em que uma mulher] sabe no funeral do marido que ele comprara dois espaços perenes no chão do cemitério, marcando, assim, lugar para ela, mesmo ali ao lado. E ela que nem quer ser enterrada, prefere a cremação. Talvez por isso, o defunto persegue-a, longe de jazer apaziguado.

Jorge Leitão Ramos, revista do semanário Expresso

#5324

Aurora gostava de recortar notícias da imprensa. Tinha colecções desconexas. Uma receita de toucinho-do-céu, arroz doce ou profiteroles, juntamente com as informações diárias das telenovelas que passavam na televisão. Era possível reconstruir o historial dramático de uma década inteira através da sua hemeroteca. Aurora devia sofrer com o desfecho de cada episódio, pois sublinhava a esferográfica os resumos dos redactores. […] Ao chegar à terceira pasta de recortes, fiquei embasbacada: tinha guardada entre as suas coisas a imagem do soldado morto na calçada, o mesmo que descobri no dia do meu décimo aniversário e que eu própria conservei durante muito tempo. […] Pelo desenho de lençóis dobrados do jornal, percebi porque é que a Aurora guardara aquela fotografia: pertencia à mesma folha de capa, a que contém a primeira e última página, onde costumavam paginar as resenhas da televisão, [com] o obituário da actriz Doris Wells, a fera. […] Eu guardava a morte de um país, ela, a de uma actriz de novelas. Os dois foram uma ficção.

Karina Sainz Borgo, ‘Cai a Noite em Caracas’